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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

cangaço intelectual

cangaço intelectual – contribuição contra o coronelismo intelectual e seu serviçal


em 4 de março de 2012, marcia tiburi nos presenteou, em seu blog, com um interessante tesouro: “9 teses contra o coronelismo intelectual”. à época, retribui tal guerrilheiro gesto generoso, com o seguinte comentário: 

marcia, genial estas tuas 9 teses. o coronelismo intelectual vem se sofisticando a cada momento. principalmente com a situação hoje de que ele foi tornado uma espécie de bem-feitor; um guardião da moral e dos bons costumes de cativos e cativas do pensamento. é só dar uma boa olhada no que se anda produzido (estilo literário e conteúdo) para cumprir as normas e pontuações da capes, cnpq, etc. e mais, no mercado editorial brasileiro (que já começa suspeito por ser mercado) tudo o que já foi dito milhares de vezes e tudo aquilo que não precisa ser dito é exatamente o que se publica. o que deve ser dito não tem espaço (claro, que às vezes escapam algo, como os seus livros e uma publicação aqui e outra ali publicada pelo bolso de quem escreve). concordo contigo e tomo como inspiração primordial, o combate que tu apontas contra esse protagonista perverso que é o coronel intelectual; o antagonista necessário dessa relação agonista: o cangaço intelectual (sua sexta tese) – lampiões e marias bonitas do pensamento brasileiro, uni-vos! (para não perder essa boa frase – rs). 

o pensamento seguiu e, em 15 de junho de 2012, marcia nos presenteou novamente. desta vez com o texto intitulado “coronelismo intelectual”. e assim, novamente, quero retribuir-lhe. só que desta vez, desenvolvendo mais o que lhe atribui como sendo resultado de sua sexta tese (“o coronelismo intelectual odeia a invasão dos sem ideias no território das ideias prontas. contra ele todo assalto é desejável.”) o antagonista necessário, o “cangaço intelectual”. 

cangaço 

o cangaceiro e a cangaceira nada conserva. no entanto, há muitos cuidados. cuidam por não nos revelar a verdade interna das suas vidas. mas que nos deixam rastros: seus modos de combate, o que cobiçavam, o terror que semeavam quando passavam, suas festas, seus jogos e seus lugares preferidos. e são nestes rastros que me entregarei a uma verdade do cangaço como inimigo à altura da verdade do coronelismo intelectual: a falta da vaidade em dar sentido a sua própria morte – armados e armadas da cabeça aos pés, com a insurgência vertiginosa sendo sua dimensão original confundida com o seu ser: ser-no-mundo enquanto apropriação radical da liberdade transformada em sua própria fatalidade. eis-me aqui, enquanto cangaceiro intelectual, ora como anarquia, ora como socialista selvagem, ora como niilista determinado. nenhum coronelismo intelectual pode conter (universitalizá-lo – aldeamento da titulação), cortar suas presas e unhas (pacificar – ocupação permanente do comentário) ou mesmo se apropriar (martiriza-lo – torna-lo herói trágico de uma produtividade acadêmica) desse tipo especial de ser-no-mundo. 

cangaço intelectual 

rastro 1 – modos de combate: o cangaceiro e a cangaceira intelectual, ambos são insurgência luciferina ou do apocalipse contra a ordem coletiva de silêncio e de debate inexistente; são insurgência utópica ou da liberação territorial contra o feudalismo de especialistas; são insurgência brutal ou instintiva contra o fundamentalismo exegético; são insurgência social ou marcha coletiva rumo ao livramento da sacrossantificada informação dos “discursos verdadeiros”. 

rastro 2 – o que cobiçam: os mitos revolucionários são purezas celestiais. os mitos de insurgência cangaceira são libertinas; possuem o cru como transcendência; preservam belos tons negros na alma; possuem a pureza do inferno; e lapidam sua perfeição no desespero do ser. desse modo pilham as mercadorias da contra-reflexão e as usam, não como descrições das coisas, mas como expressões de vontades. não se perguntam se uma titulação pode lhe trazer ou não vantagens diretas numa diplomacia habilidosa, mas se perguntam o que resultam de sua introdução no pensamento livre e da autocrítica. 

rastro 3 – o terror que semeavam quando passavam: inesgotáveis sequências de monstros (mostram o quanto se idolatram livros, temas e palavras) e de insensatos (desprezam o lugar que a autoridade ocupa no mundo), de quimeras (criaturas perversas do fim dos tempos divididas entre a aceitação e a recusa), de dragões (singularidades da revolta de dolorosas maturações cujas ideias têm a violência de um corisco), de górgonas (entregue ao exílio irreversível já que o regresso é proibido) e de licórnios (se trabalham é para ganhar a vida sem trabalhar). não é hereditário, nem envelhece. 

rastro 4 – suas festas e seus jogos: festas e jogos de contra-sociedades. exploram a superfície do universo onde o acaso o fez nascer. não planta nem edifica. detestam a sociedade policiada de seu tempo e espaço. parodiam professores, professoras, estudantes, sábias, leigos e todo tipo de lacaice intelectual. viram do avesso o próprio futuro. impõem à reprodução do mesmo uma forma grotesca acentuando o ridículo burlesco das consequências do coronelismo intelectual. colocam-se acima das leis do autoritarismo intelectual respondendo às ofensas que essas leis lhes fizeram. 

rastro 5 – seus lugares preferidos: todos aqueles que servem como espaços de agir sobre o presente. lugares libertos dos procedimentos de discussão corriqueiros entre políticos, filósofos, ou pessoas ditas autoridades com pretensões à ciência prática. agrestes intelectuais que se definem como liberdade, natureza, supra-sociedade, abertura e horizonte. estar à vontade nas anomalias. é o espaço dos sonhos de infância estregue à perversão: a vida como um jogo perverso de recusa ao lugar no mundo dos adultos. emancipação de toda tutela (educação, robotização e plastificação) e de toda maioridade como simples ordenamento e proibição.

léo pimentel - amante da heresia

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