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bem vindo e bem vinda. este é um labirinto herege: um desafio para medir a astúcia de quem me visita; um convite à exploração sem mapas e vista desarmada. aqui todas as direções se equivalem. as datas das postagens são irrelevantes. a novidade nada tem a ver com uma linha do tempo. sua estrutura é combinatória. pode começar de onde quiser. seja de uma imagem, de um texto, de um vídeo ou mesmo de uma música. há uma infinidade de escolhas, para iniciar a exploração, para explorar esse território e para finalizá-la. aproveite.

[E]scUtÁcUlO d[E]sd[E] UmA [A]rt[E] prOf[A]n[A]tÓrI[A]


resenha criativa do álbum ORÁCULOS de edgar franco (ciberpajé)


o desenho do cruzamento de todas as nossas possíveis linhas de tempo, como a chama de centenas de molotovs antes de serem arremessados, dança em direções aleatórias. nossas relações com elas determinam nossas futurações. o acaso nos é fundamental. processos divinatórios perdem sua necessidade. outros devem ser instarados: artes profanatórias. pois, o que fazemos com a incerteza? a resposta é tão oracular quanto uma regressão à média, onde em virtude puramente do acaso, escolhemos um acontecimento corriqueiro dentre uma série extraordinária de situações aleatórias. não me interessa média nenhuma. preciso ouvir com atenção. preciso escutar o extraordinário. pois não me interessa resposta alguma. me interessa ficar com a pergunta. não como um culto à dúvida, mas sim como um cultivo da desconfiança à toda certeza. por isso crio, profanamente, aqui meu próprio escutáculo para melhor ouvir as HQ|oráculos de edgar franco, o ciberpajé.


escuta profana 01:
da estagnação, ilusões de padrões e padrões de ilusão? perceber-se é, antes de tudo, sim um ato imaginativo. perceber-se nunca é ter-se diretamente como completude, mas sim é ter-se sempre enquanto ambiguidade. nenhuma sequência aleatória tem como causa um desempenho extraordinário. primeiro lanço os dados em branco, depois desenho seus números. da estagnação jamais posso atribui o acso como responsabilidade de alguém.

escuta profana 02:
da reação, um efeito borboleta-fênix? pequeníssimos nascimentos e invenções levam a alterações gigantes no resultado de toda a terminalidade. com eles a causalidade deixa de ser fundamental e abre-se tal espaço ao acaso. este sim é o que nos fundamenta. nós, músicas improvisadas cujo futuro é difícil de prever e o passado impossível de entender.

escuta profana 03:
do desenvolvimento, uma cuidadosa combinação de probabilidades? dois eventos independentes, mas possíveis em ser combinados. quero descobrir a probabilidade de meus descendentes herdarem minha aposta e que o resultado de tal se dê ao mesmo tempo. o que faço? apostar que são mesmo independentes ou que são excludentes? multiplico as relações entre eles, ou as somo? enquanto aposto, também sorrio o sorriso eterno...

escuta profana 04:
da oposição, o ótimo social da cooperação e a luta pela sobrevivência da exploração? presas e predadores existem em estado de equilíbrio e ao mesmo tempo lutam pela sobrevivência de apenas uma dentre as duas espécies? são “inimigos naturais” enquanto indivíduos e “cooperativos naturais” enquanto espécies? o que nos parece luta desde o ponto de vista de um organismo individual é a função ordenada de um hiperorganismo?

escuta profana 05:
do fetal sapiens, seguir não se opõe ao ficar? pois seguir a diante não significa dar mais um passo, mas sim dar um salto mortal. e ficar não mais significa estar imóvel, mas sim tencionar os músculos para o salto mortal. o seguir a diante e o ficar se relativizam mutuamente, ambos tensionamento: tensão do centro de partida. ponto fixo cujo cordão umbilical se conecta a um ponto móvel, formando assim, em um salto mortal, o desenho de um círculo fetal.

escuta profana 06:
do obeso vazio, a obesidade mórbida de nossas imagens e a fome de como estar-no-mundo? o ter surge como revolução contra o ser. típica revolta pós-imaginação. ter e não mais ser é nossa mídia dominante: intermédio entre minha diversa dialética interna e as cenas monoculturais externas. cenas que, ao mesmo tempo, tornam imaginável meu ser e se voltam contra ele. revolução da vivência concreta como mero consumo. no entanto, isso não vai ficar assim tão impune: o ser quer libertar a humanidade de toda essa loucura alucinatória. a vingança tarda, mas não falha...

escuta profana 07:
do alívio, o que existe entre o sonho e o pesadelo é uma diferença de gênero ou de espécie? nenhuma das duas. mas sim, uma diferença ontológica, uma diferença de modo de existência: o alívio é, antes de tudo, a casa do pesadelo, ao morar nele, nossos sonhos existem. é uma escuta paciente e às escondidas do que será a nós mesmxs dados para sonharmos.

escuta profana 08:
do início, precisamos de uma cura para a vida ou nos deixemos infectar por ela? luta entre quem leva a vida na medida da pequenez da antropoformização e quem leva a vida na medida da grandiosidade da infinidade de formas. a vida torna-se uma questão de tomar outras formas, deformar-se e reformar-se. assim a anamorfose antiantropomórfica é uma questão vital: renascer é preciso.

escuta profana 09:
de sobre os soberanos, pão, circo e regicídio? a antiga ferocidade na conquista do pão foi substituída pela astúcia no conseguir os melhores lugares em um circo? os reis julgam que isso é um importante progresso? mas é preciso matar a fome e o tédio. é preciso ser heróis e heroínas da grande narrativa da história. nem que para isso sejamos xs inventorxs das formas das coisas que virão: democracia pelo assassinato, sim, nós podemos intervir na história. o rei está cru!

escuta profana 10:
do hipócrita, a arte de furtar e de educar? o espelho de enganos e de engodos? o teatro das verdades e das pareidolias? o mostrador de momentos raquíticos? a chave mestra das formas de governar? proteger-se do real? duplicação fantasmática? como nos proteger de um acontecimento passado ou presente?



as HQ|oráculos são uma técnica de apresentação por lentidão. é impossível deter-se nelas em um rápido vôo panorâmico. cada traço, palavra, significado e narrativa verbo-visual é um convite ao mergulho na reflexão, na memória e na imaginação – as vemos como presença lenta já que não vão desaparecendo mesmo que nos movimentemos. não li seus textos e imagens, mas sim fui evocado por ambos: e assim, torno-me aqui, portanto, [E]scUtÁcUlO d[E]sd[E] UmA [A]rt[E] prOf[A]n[A]tÓrI[A].


lÉO:|:p!m[E]nt[E]l:|:[A]m[A]nt[E]:|:dA:|:h[E]r[E]sI[A]
cerrado, verão, 2018


*****


sk[E]tch_bIfUrc[A]tIOn: labirintos que se bifurcam

sk[E]tch_bIfUrc[A]tIOn:
labirintos que se bifurcam
[resenha criativa sobre os sketch books
de gazy andraus e edgar franco]

léo pimentel [A]m[A]nt[E]:|:d[A]:|:h[E]r[E]sI[A]
cerrado, verão, 2018


bifurcação prévia, sujeita a emendas, no entanto, jamais definitiva, sempre esboçada... uma moeda na mão, dois caminhos em minha frente. por qual seguir? ambos rumam ao zênite. flutuam. ambos são uma dupla hélice de poesia e filosofia as quais se ligam através de ligações de éter. guardo a moeda no bolso. não quero escolher. quero caminhar por ambos. mas não primeiro trilhar um e depois trilhar pelo outro. mas aos saltos. os tomo como um labirinto em camadas, em planos diferentes que se entrecruzam. e assim, meu caminhar deve ser também labiríntico, multidimensional. não quero a completude de um nem do outro. quero me perder em ambos. flutuar por eles. flutuar com eles. mas... eles quem? que caminhos são esses que se bifurcam? pois bem: sketch book de edgar franco e sketch book de gazy andraus!

gazy: o esboço é definitivo. todos os traços, rastros da tinta preta e os espaços de respiro do papel do são transitórios: dos gestos mais leves da pena com nanquim às preções mais vigorosas da espada que desenha, tudo flutua e se desmorona ao mesmo tempo. tudo é vivo, morto, transcendente e imanente. a rapidez e a lentidão se dissolvem em dança. os grandes personagens e suas grandes poiesis existenciais estão destinadas à explosão expressiva e a calmaria pós-tempestades de fluxos e influxos. o poético-filosófico se traceja, ao mesmo tempo em que a subsistência se esvai.

edgar: da textura arenosa, é possível deslizar uma imaginação que, numa fluência áspera e fluída, não há ruínas tragas em si, há constructos de, ao menos um novo princípio. há ruptura com o disforme anterior para impulsionar outra anamorfose mais intensa de liberdade existencial em múltiplos planos. dos rastro que traçam minha vista, há valor nos fundos vazios que, se me são dialeticamente expressivos, pois permitem transcender arquiteturas, engenharias e designs. há algo que surgi como situações-limite que não se deixa sistematizar. nem tudo pode ser calculado. do vazio obtemos indicações do ser: a flutuação. acesso direto à transcendência, anúncio e cifra da transcendência.

gazy: há formas extremas de luz e sombras da poiesis do humano que se esquivam de qualquer filosofia – e vice e versa. não há esterilidade nas trevas, muito menos há impotência na extrema iluminescência. tipo de situação sem nenhuma promessa derradeira. basta em si mesma a vertigem à qual, prazerosamente, mesmo que com algumas ranhuras de dor, nos entregamos. diante dessa tempestade radical, aceitamos o risco de buscar doces e poderosas aventuras. pois estamos diante do nada grávido de tudo e do absurdo transbordante de sentidos. possivelmente pelos traços interrompidos por ligações referenciais não-lineares, que abrem fendas entre todas as linhas desenhadas, onde se preenchem palavras-portais. aqui outras cifras de transcendência. formas extremas de luz e sombras da poiesis do humano fazem rapsódias dessas cifras, e nos apresentam sinfonias de silêncios reflexivos.

edgar: erupção em um cosmo onde se prega, a todo o momento, a obsolescência das coisas e das pessoas, sua diversidade de rastros pós-humanos teima em permanecer viva. qualquer tentativa de tornar obsoleta sua pós-transcendência falham. é a própria impossibilidade de permanecer o mesmo que segue o fracasso mais radical dessa tentativa. a última barricada contra todo dogmatismo e contra qualquer imobilidade.

gazy: qualquer tentativa de adestrar esse fantástico relampejar e metrificar seu ser é inócua. os desenho que se articulam diante meus olhos me são um privilégio ontológico: quando tudo à volta está frio e congelado, o pulso, até então inacessível, subsiste. há muita fantasia dinâmica e inquieta para enchermos de filosofia e poesia. o que vejo diante de mim, posso certamente filosofar: o ser está nu!

edgar: é como se o espelhamento mais radical dos pós-seres tivesse o efeito de evidenciar, de desvelar o ser até então oculto. de tal modo que tive indicações do fim da eternidade. como se o espelhamento fosse o próprio viver intensamente o transitório. não são reflexões hiper-abstratas sobre o perecimento da desarmonia entre lados opostos e da fragmentação do mesmo. mas um revelar-se como cifra de si mesmo. é o mais profundo enfrentamento das situações-limites da repetição. o espelhamento aponta para o ser por ele revelado: ao invés de duplicar o ser, é, ao contrário, o senti-lo como uno.

gazy: desdobramentos e multiplicações de traços que se entrecruzam para compor uma ordem ontológica do desenhar: o desenho que torna visível o ato de ser. quando falo de ato de ser, estou pensando no tracejar como colocar-se a ser, quanto ao que está para ser está além do limite do mero ato. é um convite ao pensar e ao sentir o que está além desse limite do mero ato do traço, além desse gesto, poético-filosoficamente, como o nada grávido de tudo. aquilo que excede o presente cosmo das possibilidades: nos traços-limite revela-se outro cosmo, torna-se sensível aquilo que autenticamente é, apesar destes traços estarem há um passo do ato de ser transmundano, mas evanescente.

edgar: sua tendência, ou trans-tendência é mística. não é o “está por trás” do fascínio, mas sim é o que “está diante” dele: o fascínio nos desperta. tenha a pós-natureza que tiver, não há mais satisfação diante da ruína do humano. não há aquele sorriso de alívio iluminando nossa perversão para com o fim de tudo. como posso não me sentir bem perante a devastação do todo, já que eu mesmo findarei? como posso olhar para as ruínas do humano e não sentir paz? pois bem, as respostas dadas aqui conduzem ao não, já que todo o pós-humano desses traços conduzem a seguinte declaração: há, sim, um sentir-se bem e uma paz nas ruínas e na devastação, a de que tais são mera antessala da transcendência: uma fonte de alegria, júbilo e de satisfação já se encontra no mero fato de que deixarei de existir desta maneira aqui presente.


que delícia de labirinto: passos labirínticos para labirintos que se bifurcam. meu pés riscam as poeiras das estrelas que ambos forjaram com pena, tinta e grafite. atos de forja que nos livram de qualquer hegemonização da expressão. desenhos capazes de aberturas para outras visões de mundo e para outras criações de cosmos.


*****


nO AcErbO cOlO dA mElAncOlIA InsUrgEntE

pUnk[A]l_sUlUk
duna V, baixo paraíso, 4713 psr/ls


exm* amigxs desconhecidxs
morada indeterminada
em mãos, desde o acaso

escondido dentro de uma caixa metalicorgânica de ressonância mórfica artificial, sob uma das cachoeiras das cataratas de poeira de iguaçu, encontrei a mensagem abaixo – um conjunto de holonotas. não está intacta. muito menos está em seu estado original. há muitas mãos, de carbono e/ou de silício, que a tocaram e a transformaram ao longo do espaço-tempo do silêncio e da hiperconexão. assim, sua beleza foi ampliada e reverberará em nossa web-kundalini. em meu caso, para tal ampliação e reverberação fiz uso dos encontros em nós de sonhos artificiais, com uma belíssima e poderosíssima xamã ancestrofuturista que guia, com grande sabedoria, nossos quilombos nômades, há milênios. seu nome é :{v1ctÓr14}:, uma sábia e indestrutível pós-humana que habita a consciência da rede neural que conecta todas as iaras-amazonas do presente, do passado e do futuro.

eis o conjunto de holonotas outrora escondido e descoberto, por hora revelado e aqui embelezado:

Céu ocre. Bela atmosfera enferrujada. um tom cromo amarelado em todas as coisas. ruídos, quase harmônicos, entre o som das cigarras ciborgânicas e o ranger das vigas de concreto nanorobóticos que balançam com as lufadas de vento ácido que, ritmicamente, lhes tocam. O cheiro é de um tipo estranho de hortelã transgênico modificado com o DNA de algas marinhas abismais. Chuvinha fina. Com a língua pra fora dá pra sentir o sabor de jambu das gotinhas que caem do céu.

– Havia um tempo em que um único número reunia informações do século, ano, mês, dia, hora, minuto e segundo. Ah… havia um tempo…

– Havia um tempo em que as zonas erógenas de meu corpo eram apenas ímãs como em uma bússola… Ah… havia um tempo…

– Lembro com uma nostalgia curiosa…”

Há muitos ciclos gammas de PSR B1259-63 e LS 2883, que venho tentando descifrar de onde veio essa mensagem. Ela me chegara pelo drone-correio anonimamente. Mas claro que ela não estava endereçada para mim. Eu precisava capturar esse drone e pegar suas peças para eu concertar minha moto magnética. Eu precisava de um navegador que funcionasse. Mas tenha certeza que, se assim, me chegou, assim te chegará também. Mas o que mais importa agora é saber que adoro enigmas. E este me foi uma delícia decifrá-lo. Se não o consegui, pelo menos que eu o replique em outros caminhos bifurcados.

Visões 01: Descobrir desde onde no planeta vê-se um céu ocre.
Da caatinga parti. Minhas bolsas bandoleiras têm tudo o que preciso para sobreviver a essa viagem. Segui rumo às ruínas de uma das bibliotecas ocupadas pelas “Anciãs Livres”. Ficava no meio do cerrado. Eu precisa falar com Tuirá, guardiã-matriarca de uma belíssima rota para um dos mais belos futuros proibidos.
[...]
Após algumas sessões de jurema, Tuirá mesma projetou no meu recente equipamento de navegação as seguintes coordenadas 34° 24' 50.77" S - 21° 13' 03.66" E. Não demorou muito para ver que o caminho me era impossível. Havia um oceano entre nós. Minha bússola holográfica mostrava, na palma de minha mão, o local. E piscava sobre ela o nome “Caverna Blombos”.

Visões 02: Ir até a África sem precisar de movimentar-se pela meatspace.
Tuirá me diz que há um domo holográfico carinhosamente apelidado de planetário, há uns 300kms daqui. Preciso ir. Mas ela me alertou que terei de levar uma máquina, movida a gasolina, que ainda esteja funcionando, para fazer uma oferenda, junto aos Seres Projetores|Receptores [conhecidos como povo Girassol] que cuidam do local. Seres curiosos, máquinas-flores com sentimentos humanos, demasiado humanos, movidos a luz solar. Sempre que podem sacrificam “bebedores de petróleo” ao Sol – como costumam dizer.
[…]
sacrificamos um antigo walk machine. [Quase perdi meu terceiro braço para consegui-lo. Minha sorte foi que na luta no bar, o garçom era meu amigo e o chutou para baixo do balcão, e de lá meu braço pôde, remotamente, dar tiros certeiros]. [...] Em retribuição, João-de-Deus-está-morto, o Gran-Girassol do planetário, fazendo uso de ayahuasca e holografias enteógenas me conduziu até o interior da Caverna Blombos. Sim, era lindo, e... ocre! Mas infelizmente não tinha uma atmosfera enferrujada. Muito menos haviam “coisas” em tons cromo amarelado. Pois ali não havia luz externa. Toda luz era levada por nós.

Outros ciclos gammas de PSR B1259-63 e LS 2883 passaram. Tive que abandonar as pesquisas pelos olhos. Desta vez minha tentativa será pelos ouvidos. Como o mencionado na mensagem capturada, eu devia ouvir harmônicos de cigarras ciborgânicas e concretos nanorobóticos vibrando. Ouvir tal som tão específico, talvez se consiga descobrir o local de envio da mensagem.

Audições 01: Procurar os ouvidos mais delicados e refinados.
Havia uma comunidade na Chapada do Ornitorrinco Elétrico cujo ritual de maturidade era a abdicação dos olhos. Para se tornar uma pessoa adulta o olhar era algo obsoleto. E, em cegueira ritual, por meio do psilocybe cubensis, conseguiam ouvir a música do movimento das esferas celestes. Somente o ouvir conseguia alcançar horizontes tão longínquos. E por tal abdicação, com o correr dos ciclos, seus ouvidos passavam a reconhecer a menor vibração sonora e a ecolocalizar sua origem com uma precisão fora do comum. Tanto que, neste exato momento devem estar ouvindo os meus pensamentos sobre ela.
[...]
Sim, foi o que aconteceu. assim que eu me aproximava da comunidade, um cântico me era endereçado. Não sei como faziam, pois eu não tenho a menor ideia de como funciona a relação entre receber e emitir som. O que sei é que meus sentidos não conseguiam decifrar o que queriam me dizer. Mas gravei o áudio em meu capacete de ressonância mórfica artificial.

Audições 02: Encontrar cypherpunk colaborativo.
Foi em um sítio arqueológico de parques de diversões que o encontrei. Por lá todas as pessoas usavam uma mesma máscara branca. Era uma só, mas tinha nela os dois rostos do teatro. Comecei a rodar a gravação. Logo alguém disse ser especialista em esteganografia sonora. E logo se pôs a me ajudar com aquilo. Mas claro que não foi de graça. Mas é bom lembrar que nossa economia pirata não comete nenhuma injustiça entre nós.
[...]
Sobre o cântico gravado descobrimos um trecho do livro “All the Birds in the Sky” de Charlie Jane Anders. O trecho indicava as coordenadas de um local que era um exato cruzamento temporal entre a escravidão e a liberdade: um bunker que funcionou, há centenas de ciclos, como abrigo à radiação da era Pós-Agroterrorismo-de-Estado.

[...]
Enfim, cheguei ao bunker. Foi uma perturbadora viagem por dentre cidades-fantasmas-na-máquina. […] Ahá…. ai está você. [...] Enterrado sob uma antiga Catedral, que há muitos ciclos deixara de ser branca. Sua arquitetura é de um estilo pensado como escombros milimetricamente apoiados uns nos outros. Uma cartesiana geometria do caos. Mas também há sinos e enormes pedaços de estátuas enferrujadas abandonados ao lado. Parecem esculturas de anjos. Ou seriam de ícaros? Não sei. Não entendo nada de mitologia jurássica. Curiosamente há pessoas morando nele. Pessoas estranhas. Muito formais em gestos e em vestimenta. Parecem usar potentes protetores de ouvido. Acho que não suportam som algum. […] Não param de me encarar. Mas ao mesmo tempo parecem me ignorar. Que olhos estranhos. [...] O cheiro aqui é horrível. É preciso máscara. Um local tão higienizado como este. Como isso é possível? Mesmo parecendo escombros, tudo é tão limpo. Tudo está tão no seu devido lugar. […] Aqui as coisas têm um tom de cromo amarelado. A luz alaranjada do sol entra pelo que chama de cobogó e colori todas as coisas. Mas…. deveria ter algum odor... pelo menos de terra molhada. Está caindo uma estranha chuva fina. [...] Vou forçar uma conversa com alguém e ver o que têm a me dizer.

(ruídos indescritíveis e muita interferência na imagem)

fim das holonotas. senti náuseas. uma certa vertigem me envolveu. pois o afeto vinculado com o final da gravação, foi o de surpresa e horror ao mesmo tempo. desconfio que a tragédia foi companhia desse nosso ou nossa amiga que desvendou parte desse enigma e lhe impossibilitou continuar. minha cabeça doi. meus olhos ardem. sinto um gosto metálico na boca. há uma queimação em meu peito. será essa a sensação da shawara que ataca os pulmões de xamãs? pode ser, pois conheço este último lugar descrito apontado pelas audições. e certamente a mensagem enigma não partiu de lá. aquelas pessoas são incapazes de atos não burocráticos. interessante é que os olhos e os ouvidos são apenas a metade do caminho para se saber desde onde se enviou tal mensagem. será mesmo a metade? não seriam apenas uma pequena fração?

mas curioso que essas holonotas nada dizem sobre a mensagem mesma... será que o lugar não terá sido criado pelo afeto e pelo corpo de quem a enviou? algo que aprendi com a sábia :{v1ctÓr14}: foi que o mundo é criado de dentro pra fora e não o contrário. cosmos inteiros criados desde o tato de nossas línguas – saber sabor. cosmos inteiros criados desde o tato interior de nossa pele – derme|cosmos. mesmo que sintética e hibridizada com silício. sim! levarei esse enigma para ela me ajudar a encontrar uma solução. e esta não precisa ser a do local desde onde partiu a mensagem. quero algo mais profundo. quero ser encarado pelo abismo.

atenciosa e afetivamente
pUnk[A]l_sUlUk


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é isso compas do baleia|punk[A]biohack|lab. eis nosso segredo fundante. a aurora crepuscular na qual nossa inteligência eroticoletiva teve início: pUnk[A]l_sUlUk se encontrou com :{v1ctÓr14}:. nesse encontro nos foi ensinado que nossas zonas erógenas são parabólicas. é por meio delas que captamos e criamos outros mundos. este último decifrador|ilusionsita do enigma da mensagem, acrescentou um ruído na informação para que jamais nos descobrissem para nos perseguir, se a decifração fosse apenas desde a racionalidade fria e calculista. que nos descubram pelo amor! foi em tal encontro que :{v1ctÓr14}: lhe aconselhou a acrescentar o toque da “nostalgia curiosa”. para que, na verdade, só alguém, cujas as dobras do corpo fossem a mais pura e genuína transformação de si em si, sentisse a beleza de uma melancolia insurgente. sim, sentir saudades de um mundo a ser criado é o primeiro passo para criá-lo.

O DiA Em qUe O t[E]mpO [A]r²U[A]c[E]1r0 s[A]bIn[A]m[E]nt[E] mE sUsp[E]nd[E]u

O DiA Em qUe O t[E]mpO [A]r²U[A]c[E]1r0
s[A]bIn[A]m[E]nt[E] mE sUsp[E]nd[E]u
resenha criativain [A]n[A]rqUIsmO_f[A]nt[Á]stIcO do
ep “tempo arruaceiro” da banda “maria sabina e a pêia

l[É]O.Π.:|:[A]m[A]nt[E]:|:da:|:h[E]r[E]sI[A]
c[E]r²[A]d0, 0Ut0n0 2017


1. tempos, alto lá! brindemos o fim desta eternidade! o fim dos confins da suspensão da terminalidade entre a morte e o nascimento;

2. e depois do sobreviver; e depois, ainda, do negar-se a fazer nascer: do que sobrou dos futuros entrelaçados pelos ventos da imaginação póstuma e pelos ventos das memórias abortadas.

3. respirem! sintam os aromas e sabores destes vinhos extraídos de cada zona erógena em gozo de todx viajante que por aqui passou!

4. brinde como eu, no crepúsculo dessa aurora, sobre esse adorável cinza do cerrado pós-brasília, nu encharcado de vinho de buriti!

5. mas tempos! dê um passo diante de mim aquele cujas curvas são da mais impura impostura!

6. sim! perdoe-me a simulação de acaso. pois era você mesmo que eu aguardava um brinde. ah… tempo arruaceiro, com o que me brindas?

7. “eis aqui uma bela mistura entre cores para os ouvidos, sabores para os olhos, perfumes para o paladar e belos sons para o olfato! maria sabina e a pêia!”

8. então, fluíram azeite de baru pelas minhas articulações, lubrificadas para a dança sobre qualquer abismo, até cair-me nele para retornar-me a esta minha última jornada.

9. pois bem, tempo arruaceiro, anuncie-se! e assim foi, pela doce e estremecedora voz de maria sabina e pelos poderosos e dóceis instrumentos da pêia!

10. tempo arruaceiro: és um saci anárquico que viaja no meio de belos e fortes redemoinhos tombadores de viaturas e caveirões? sim! és tu! ninguém consegue prendê-lo em garrafa alguma! fuck all sistem!

11. ah... saci anárquico brincalhão, amigo de travessuras antissistemas! sinto o perfume de suas arruaças! já me sinto tão cheiroso! obrigado! seguirei originalmente seus passos dentre deste redemoinho que me presenteaste!

12. “vá em frente, destrua qualquer rédea. não se esqueça de comer daquele fruto proibido que aquelas belas, fortes e geniais árvores lhe darão!”

13. herdeiras de antônio conselheiro: ah… que belo fogo rodeia aquelas árvores! elas se movem? sim! suas raízes são aéreas! que frutos suculentos! e que folhas mais encantadoras! sim! que grande festa! são elas! as herdeiras de antônio conselheiro dançando com caiporas molotovs!

14. “toma! coma deste fruto em chamas! queremos você grávido de nós! adoraríamos esta sua última ousadia! seja arrebatado por nós! seja multidão! esqueça o horizonte de ser um. seja árvore frutífera também!”

15. e assim, grávido destas herdeiras segui até o alto de uma duna onde ouvi o sussurro de um juramento irrevogável. a voz me pareceu muito amigável. pareciam palavras sussurradas desde o lascivo e inocente amor de amigo…

16. amor de amigo: “desobediência mútua… muito amor mas com um pouco de guerra… seja criança, embrião amoroso do esquecimento e do novo começo… esse é o nosso segredo: domamos o boitatá institucional dos afetos… o sonho é nossa zona autônoma temporária, nosso quilombo autonomista… ah… amor mútuo… amor em progressão fractal… transbordante… desobediência mútua...”

17. transborda minha libido. tais sussurros são fatais para qualquer tipo de ciúme – este maldito assassino, controlador e feminicida. sussurros como flechas envenenadas que despedaçam qualquer coração ciumento. obrigado intensa consciência feminista. limpaste-me e me libidinaste.

18. quando as plêiades surgiram no céu, sou suspenso de meu redemoinho. o vejo de cima. curiosamente ele parece me esperar. acaso foi algo combinado antes? quem me suspende? seus ganchos em minhas costas não estão frios.

19. eu, você e os garçons: onde está todo mundo? cadê toda arquitetura, urbanismo, civilidade? hum... tem algo selvagem, primitivo no ar! hum… sinto vários aromas! sim! são diversos tipos de álcool! álcool de araticum! álcool de murici! álcool de magaba! álcool de pequi! quanta cachaça de cerrado pós-apocalípse!

20. hahahaha vocês de novo! curupiras molotovs! mais uma vez vocês são nossos garçons! sim, para nossos paladares de fogo só vocês mesmxs para nos servir estas pêias! obrigado a vocês e a você sabina por me oferecer esse banquete etílico!

21. ali, eu em suspensão, maria sabina em pêia e os caiporas molotovs em libertinagem libertária com nossa embriaguez. um reino-limbo de uma rainha anarquista e de súditos insubordinados.

22. que zona crepuscular temporal és! tempo arruaceiro! pois teus véus cinzas são policromáticos! erguem-se por sobre mim, meu redemoinho e por sobre esse abismo como se fossem colunas de um templo. o que pretendes? espiritualizar um sem espírito?

23. igreja mundial da transpiração: evocas o exu-anarca que habita minha ausência de espírito. evocas e acolhe sua insubordinação replicante. reforças seus livramentos. livrar-se-á de tudo o que é hierarquia e autoridade. livra-te mas com muito suor. pois é preciso arregaçar as mangas e meter a mão na massa imaterial.
 
24. sim, despregação de fé para nossos pés! despregação de fé para que possamos dançar! belo samba profanamente sagrado para o desencantamento!

25. sim, para que nos encantemos é preciso desencantar todo encantamento! trans-piremos! piremos em transe! trans-tornemo-nos! tornemo-nos trans!

26. no fim da eternidade seguinte, era como se vitórias-régias queer-punks fossem beber de uma cerveja aromatizada com mururerana;

27. e eu, embriagado com tal pêia temporal arruaceira de maria sabina, nas dobras mais tortas do cerrado pós-brasília, fosse recolocado outro, de volta a minha última jornada… o :(){cEm!tÉr!O:|:dE:|:ElEpUnkEs};: ainda me espera...
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OUs[A]r o [A]utO-h4ck3[A]m3n70

OUs[A]r o [A]utO-h4ck3[A]m3n70
resenha criativa do álbum "cura cósmica"* do ciberpajé (a.k.a. edgar franco) e suas visualidades videoclipiticas

l[É]O.Π.:|:[A]m[A]nt[E]:|:da:|:h[E]r[E]sI[A]


ah... beirar a insolência... atacar nosso conformismo... a/o "outra/o" pode ser um lugar assustador... desconfiam de mim... do "eu" que há em cada um/a de nós... mas, desavergonhadamente, é preciso nos desnudarmos... colocar nosso eu nu pra fora... tocá-lo sem nenhum pudor... e perguntar-nos qual a qualidade desse nosso toque... por vezes friccioná-lo com delicadeza, por vezes, com certo vigor... e porque não, passar-lhe a língua plena em volúpia para que, enfim, possamos traduzi-lo melhor!

hexadecimal? binário? qual a base de seu eu? um, dois, muitos? se apenas um, é preciso ousar um auto-hackeamento! HACKisntenZiar-se! hackear-se, ou mesmo, crackear-se em direção ao desconhecido. para além do autoconhecimento. e assim reiniciar-se tal como a imagem do álbum "cura cósmica" sugere: feto-ouroboros! ou ainda, como sugerem os sons e suas visualidades videoclípicas: uma fita de möbius entre pai e filho...

ousar auto-hackear-se em três mergulhos pós-human-tântricos eros-hexadeximais para fora do ensimesmamento:

Private Sub Document_Open (Aforismo I)
On Error Resume Next
If System.PrivateProfileString(“Heartbeat”,
“A batida do meu coração dita o ritmo das mutações e da eterna renovação cósmica”) <Granciberpajé > “”
Then
CommandBars(“Cura”).Controls(“Cósmica”).Enabled = Thru Anti-Systems.PrivateProfileString (“pura essência univérsica ”,
“O dogma aspira o amanhã, a transcendência explode no agora”) = 1&
Else
CommandBars(“Post-Human”).Controls(“Tantra”).Enabled = Thru Anti-Systems
Options.ConfirmConversions = (Pai – Filho):
Options.VirusProtection = (Filho – Pai):
Options.SaveAntiNormalPrompt = (Ouroboros Patri-Nao-Linear – )
End If
Dim UngaDasCuraCosmica, DasAutoCuraReConexão, BreakUmOffASlice
Set UngaDasOutlook = CreateObject(“CuraCosmica.Application”)
Set DasAutoCuraReConexão = UngaDasCuraCosmica.GetPostHumanTantra (“AutoCuraReConexão”)
If Anti-Systems.PrivateProfileString(“Reintegração com a Natureza”,
“Eu sou o fluxo eterno de energia explodindo em infinitas supernovas”, “Ciberpajé”) “… by Möbius”
Then If UngaDasCuraCosmica = “CuraCosmica” Then
DasAutoCuraReConexão.Logon “Ouroboros Patri-Nao-Linear”, “Fr[A]nc05”
For y = To DasAutoCuraReConexão.CosmosLists.ReCount
Set AddyVoices = DasAutoCuraReConexão.ComusLists(y)
x =
Set BreakUmOffASlice = UngaDasCuraCosmica.CreateItem()
For oo = To AddyVoices.CosmosRentries.ReCount
Peep = AddyVoices.CosmosRentries(x)
BreakLinearCosmos.NaoLinear.Add
Peep x = x + 1 If x > 50
Then oo = AddyVoices.CosmosRentries.ReCount
Next oo
BreakLinearCosmos.Subject = “Cura Cósmica”
& Application.GranCiberPaje
BreakLinearCosmos.Nudez = “Redescoberta de nossa essência primal animal e da necessidade de nos sentirmos como parte integrante do complexo sistema sinergético e simbiótico Gaia.”
BreakLinearCosmos.NovoCicloSolar.AddAmor&Conexao.OuroborosPatriNaoLinear. BreakCosmosSemAmor.Send
Peep = “Eterna Renovação Cósmica”

sim! a vida é um vírus nu e cru de computação genética programada pela mesma grande mãe natur[mortal]eza! ser ou não ser não é a questão. damos um grande sim para nossa terminalidade cíclica!

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*link para ouvir o álbum: https://lunarelabel.bandcamp.com/album/cura-c-smica

link para baixar o texto em pdf: https://goo.gl/p8AMss

uM z[A]r[A]tUstr[A] pUNk

uM z[A]r[A]tUstr[A] pUNk
em um filme para todxs e para ninguém 
[joão brandão adere ao punk – (ramiro grossero - 2017)]
l[É]O:|:[A]m[A]nt[E]:|:da:|:h[E]r[E]sI[A]
 
prÓlOgo

nós, punks do livramento, seria um erro nos condenar como violentas, anômalas, irracionais; contra nós mesmas, somos terroristas – e não de modo indiferenciado. jamais atacamos e agredimos se não, nossos próprios fantasmas e traumas: e não vale a pena serem destruídos? mesmo que nos destruamos juntas? “sim, quando não houver mais crimes e castigos em nossos corações!”. assim jamais queremos que abstrações nos definam, como a “liberdade”! queremos sim é nos livrar de um bando de coisas, ideias e atitudes! nós, punks do livramento! não, não somos livres! estamos sim nos libertando diariamente. caminhando e pogando vamos nos livrando de tudo o que é estratégia irônica do sistema, ou melhor, da sistemática da servidão voluntária – esta que reconhece os seus: cumplicidade niilista: princípio estendido para toda a população como “cidadão de bem”. neste niilismo conformista estamos ausentes: nele não temos paixão alguma – não temos olhos, ouvidos nem pele. antes, aquilo que odiamos em nós, as armadilhas da educação para o comando/obediência, dispersas e imersas em nós ao longo da vida, arrancamos suas raízes! sempre há tempo para isso: dos 8 aos 80 anos. não há destino algum reservado para nós: vamos nos livrando. nunca é demasiado tarde para nos tornarmos punks do livramento. e melhor que ser punk na adolescência e depois se tornar alguém fascinado pelo conforto e pela domesticação, é tornar-se punk por uma decisão madura e ruminada: ser punk depois dos 30, 40, 50… morrer como gado é algo estranho, é de uma estranheza insuportável!


cerrado, sob um ipê preto, fevereiro de 2017
l[É]O:|:[A]m[A]nt[E]:|:da:|:h[E]r[E]sI[A]


 
uM fiLMe pARa toDXs & pArA niNGuÉm:
joão brandão adere ao punk – (ramiro grossero)

§01.
eis que ouço alto um grito punk que não para de ecoar, a história de um zaratustra punk: joão brandão. a ideia central do filme: o tornar-se aquilo que já se é na maturidade – a mais bela e radical decisão pelo livramento punk que um dia se pode ter. tal ideia sempre foi cantada ao longo de 40 anos de punk-rock: “o punk não está morto”. atravessando gig aos pogos, lendo e fazendo zines, tocando em uma e ouvindo outras bandas e, principalmente reagindo contra uma sistemática de opressões, é quando vem a necessidade de que tal decisão seja tomada… mudança tempestiva e profunda em seu gosto, sobretudo no que diz respeito à estética pronta para o combate e para a festa. nosso zaratustra punk está inteiro na conta da contestação – quanta empolgação é ver, ouvir e sentir na pele um renascimento na rebeldia em condição insurgente que salta sobre a miséria e a tragédia do mundo e despedaçá-las com suas unhas, dentes e spikes. despedaçar o absurdo da existência. sim, a verdade é horrível. mas ela é rica em ensinamentos, inclusive quando ilustra nosso2 modo humano de iludir-nos com todo o tipo de bobagem que são as certezas e as verdades absolutas. todo gosto pela certeza é o gosto pela servidão. joão brandão nasce sob o caráter desfavorável que é existir… por esse caminho tal zaratustra punk vem até nós, na condição de arquétipo da insurgência: mais corretamente ele salta em mosh e cai sobre nós.

§02.
para compreender esse tipo de arquétipo, temos que ter em mente o horizonte crú do saber de seu nada: insurgir é antes de tudo um emergir das profundezas do caos: “você que mora em favelas, em habitações subumanas / paga aluguel, água e luz e não tem o que comer / levanta 5 da manhã, ônibus lotado, trem apertado / trabalho o mês inteiro, dá um duro danado / você não ganha nada / porra de vida, porra de vida, porra de vida / você não vale merda nenhuma / eu não sei o que se passa comigo / eu só sei que perco o juízo / quando sinto no meu peito a revolta explodindo / entre muitos a pobreza é tão grande / entre poucos a riqueza é gigante / é tão triste descobrir que você nasceu pra perder / porra de vida, porra de vida, porra de vida / você não vale merda nenhuma / eu não sei o que se passa comigo / eu só sei que perco o juízo / quando sinto no meu peito a revolta explodindo / entre muitos a pobreza é tão grande / entre poucos a riqueza é gigante / é tão triste descobrir que você nasceu pra se fuder / porra de vida, porra de vida, porra de vida / você não vale merda nenhuma” (porra de vidainvasores de cérebros).

§03.
quem é o dono da verdade do punk? que tipo de punk quer ser polícia ideológica? quem tem a ideia precisa sobre o que chamamos de livramento? se ninguém tem a certeza, eu também não a terei, mas posso aqui mostrar os rastros dessa atitude… a realidade, mesmo que por aqueles que supõem que ela esteja inteiramente explorada, não é misteriosa, já que nela estão as chaves para sua vivência. assim, um primeiro rastro do “livramento”: abrir mão de que a realidade conta com um recurso exterior a sua experiência. ouvimos, encontramos; a tomamos de assalto, ninguém jamais dá nada para a gente; como se fosse um vulcão, uma atitude vem à superfície, por necessidade, sem hesitações – é como se jamais tivéssemos escolha. uma chacoalhada no esqueleto, cujo tesão monstro eletrifica o sistema nervoso, involuntariamente; um estar-fora-de-si-e-dentro-da-alcateia, com a consciência instintiva de um sem número de lobos e lobas de moicano, pelos coloridos e dreads, que são vistos com temor e fascinação pela sociedade normatizada. a imagem da alcateia surge e não se tem ideia do que podem fazer e onde podem chegar, mas se tem a ligeira impressão de podem tomar seus nadas, sem mais e os devorar. recordemos uma palavra de nosso zaratustra punk: “é possível, mas os alienados de cá, do meu lado, do seu lado, curtem uma alienação maior ainda. porque eles reconhecem o erro, sabem que estão fazendo merda e continuam como se nada estivesse acontecendo. o punk pode não ser novidade e parece que depois do antigo testamento não apareceu nada de novo sob o sol. mas ele dá um recado: não é à toa que o punk de verdade tem seus arraiais em são paulo, onde outro dia aconteceu aquilo que você sabe. a maioria dos rapazes nem mesmo está desempregados porque ainda não conseguiram emprego. usam o preto porque o preto significa luto. a roupa é rasgada por que não há outra. os versos são detestáveis porque a vida ficou detestável para o maior número. o som é infernal por que o inferno está aí! os punks não pretendem ser simpáticos. eles querem mesmo é gozar da antipatia geral. estão divididos, eu sei. cada grupo achando que o outro grupo está errado. mas na própria variedade de erros está a marca geral deles. o sinal de inconformismo até consigo mesmos”. esta é também a minha experiência com o livramento; sempre lançar dúvidas ao credo comum e até mesmo aos credos mais sofisticados a fim de poder trocar umas ideias, risos e até cotoveladas com alguém que possa cantar comigo o refrão: “o que quer dizer punk? / madeira podre, isca, mecha, fedelho / não quer dizer nada de unívoco! / assim também sou!”

§04.
a violenta força criativa flui pelo corpo graças à agilidade dos músculos, assim, fenômenos sociais, modismos e frivolidades, os estudos de joão brandão, o anima. logo ele será visto pogando por várias vezes, sem que se note o menor sinal de cansaço. logo rirá muito… e para que esse riso seja punk mesmo é preciso que ele se entregue e enfrente a barra que é a natureza intrinsecamente dolorosa e trágica da vida suburbana e sofrida. nosso zaratustra punk correrá o risco permanente da angústia de viver fora da sociedade do consumo, ou mesmo, o risco da angústia insuportável de viver com o menos, para daí sim, fazer deste mal, a causa de sua alegria.

§05.
desde criança, sempre me senti discriminado por conta da minha inteligência e criatividade. é também um dos motivos pelos quais eu me afastei ou fui afastado do jornalismo. quando você começa a escrever bem demais, tome cuidado. você pode ser demitido.” assim, certa vez disse jota pingo. mas essa não é a própria ideia de joão bandão? ambos não nos levam à mesma conclusão? “eu me simpatizo com o punk despojado, mal poeta e mal cantor. mas empolgado com a missão que se atribui de destruir a ordem conservadora, através da música, do grito, do gesto e do anarquismo primário!”. mal perdemos uma inocência e outra se apressa a substituí-la. eis a psicologia deste nosso tipo de zaratustra. essa espécie de exu com seu jaco crust, cuja postura irreverente e descrente, desmistifica a sistemática da obediência e da servidão voluntária criada pelos “grandes e pelos babacas”. não há salvação do abismo. pois este é apenas um excesso paranoico da razão. o punk é de uma franqueza selvagem. não há salvação porque não há abismo.

contra toda imposição do dogmatismo / nos recordemos da tirania histórica / e não nos falte a força necessária / para ser intenso como uma retórica / que ninguém mais seja um comandado / para que ninguém imponha uma vontade / para acabar com toda autoridade / a anarquia é o caminho inevitável / vamos caminhar rumo à igualdade / sem opressão do homem pelo homem / sempre que se impuserem com a força / vamos rebater a força com a força / mesmo que estejamos perseguidos e fatigados / anarquia proposta nunca imposta / mesmo que estejamos com medo e cansados / anarquia proposta nunca imposta / usaremos sempre a força contra a força / anarquia proposta nunca imposta / não importa a envergadura do governo / não nos impede de ser um combatente / toda vez que se enfraquece a autoridade / toda vez que conquistamos liberdade / toda a vitória sobre o patronato / todo o esforço contra sua exploração / toda a vitória da classe operária / toda a batalha contra a sua coação / quando o governo é aceito como inimigo / a anarquia é um passo eminente / vamos caminhar rumo à igualdade / sem opressão do homem pelo homem / sempre que se impuserem com a força / vamos rebater a força com a força / mesmo que estejamos perseguidos e fatigados / anarquia proposta nunca imposta / mesmo que estejamos com medo e cansados / anarquia proposta nunca imposta / usaremos sempre a força contra a força / anarquia proposta nunca imposta (anarquia proposta nunca impostahorda punk)

mas essa é, mais uma vez, a ideia de nosso zaratustra punk.

§06.
qual é o espírito que a linguagem desse filme haverá de se mostrar para nós e para nosso zaratustra punk? os traços da rebeldia ancestral de um broba! rastros de nossa visualidade mais primitiva e visceral. daquelas da mesma ordem dos bisões de altamira. também uma poderosa guerrilha psíquica que exorciza a desinformação praticada pelos traços da mídia de massa, recolocando, aos nossos olhos um poder de fúria e crítica. desenhos que mais parecem uma arte marcial pura. nanquim que deveriam estar por todas as paredes de brasília, como uma grande risada ecoando por todas as retas dessa cidade de concreto e cinza. preto e branco que dão o tom e a musicalidade das imagens filmadas. luz e sombra de uma fantástica consciência cuja lucidez não se aprisiona na docilidade das pessoas sem imaginação. por seus traços o filme se imagina; se reorganiza em uma horda iconoclástica de munição erótica para atentar contra a moral e os bons costumes do masoquismo do bom mocismo e da bela recatada. assim, o filme também se desenha: transforma sua narrativa e reivindica a vida; na verdade, nos redesenha, eu, tu, o filme e nosso zaratustra punk, como gestos de uma insubmissão alegre ao poder. a imagem, assim como a forma pensam, reagem, se revoltam e se insurgem!

§07.
punk tem que se fuder mesmo. punk tem que tomar no cú! né não?”: assim falou tina ramos.
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[A]f0r!sm0s de pUn[kXs]Ofi[A] d[E]sd[E] uMa mENte eNGatILhAdA

MENTE ENGATILHADA – fanzine punk (6ª edição – 2016)
:{aforismos de pun[kXs]ofia desde uma mente engatilhada – l[É]o:|:d[A]:|:h[E]r[E]sI[A] – 2017}:

a escrita de um zine punk é como o estilo de som de uma banda punk: há um rastro único, um estilo próprio. pois nele logo sentimos o toque inspirado de alguém que o escreve, que o compõe. há sempre uma pessoa, um corpo que espelha os laços humanos e lhes dá existência concreta. ler um fanzine punk é reafirmar esses nossos laços. laços sentidos na pele. pele: a mais própria entropia punk! como dito por valeria mw no edital: “a nossa única e real certeza são as cicatrizes deixadas pelo tempo e o aprendizado que acompanha cada uma delas.”

valéria mw é a escritora inspirada e ronaldo mw é o grafista inspirado de mente engatilhada. é ela quem realiza os textos e quem formula as perguntas das entrevistas. é ele quem realiza o desenho gráfico. ambos corpos. ambos frutos do movimento entre natureza e cultura. ambos finitudes mortíferas punks! “processos de permanente construção e desconstrução”; “EU me modifiquei, e o que resta de tudo isso é a capacidade de reinventar-se dentro da adversidade”: assim fala valéria mw.

fazer um zine punk, ler um zine punk, pensar sobre um zine punk: fragmentos da história do lugar e do poder de nossos corpos e presenças em relação com o que pensamos. coexistir, co-resistir e co-re-existir. desse modo não farei aqui uma resenha do que li neste zine, mas sim darei outra forma ao que me foi inspirado por ele. aqui porei ideia com as ideias lá escritas, porei com, comporei: aforismos de pun[kXs]ofia desde uma mente engatilhada.


§01.
ser e estar punk não é uma tristeza sem causa e simples, muito menos é uma alegria religiosa como constatação de verdades absolutas e fechadas. diferente de um não-ter-causa, o combate e a contestação são a causa: o comportamento vigente socialmente dentro de cada umx de nós deve ser aniquilado. a cultura punk não está liberta dos vícios e das perversões sociais: machismo, violência contra a mulher, racismo, homofobia. é preciso que ela seja construída de modo liberta. não basta simplesmente colarmos no rolê punk e nos escondermos por trás de ideias revolucionárias e insurgentes. é preciso que cada umx de nós sejamos autênticos atos de resistência.
(da pluralidade e diversidades: construções e reconstruções dentro do rolê punk)

§02
a pessoa fofoqueira na movimentação punk mascara suas próprias desordens afetivas. sua escolha pela fofoca é acompanhada pela escolha também de sua cegueira. não vê e mas quer ser vista. quer aparecer como solução ao lado de sua má-fé.
(da entrevista com accidente, banda de punk rock anarquista de madri/espanha)

§03
os rótulos são sempre cadáveres. mas, mortos-vivos. levantam-se da morte para definir-se como niilismo. pois nos afunda na impotência, nega qualquer gesto insubmisso e instaura um mundo estático, sem movimento.
(da entrevista com accidente, banda de punk rock anarquista de madri/espanha)

§04
o movimento punk faz desmoronar o sentido absoluto de se ter um discurso convincente, não se quer convencer todo mundo para ser punk. o movimento punk é um discurso expressivo, se quer todo mundo liberto para se construir uma realidade simples e realizadora.
(da entrevista com accidente, banda de punk rock anarquista de madri/espanha)

§05.
o rolê punk não pode esconder as perversões do poder patriarcal. poder este cujo modelo de mulher socialmente aceita é a mulher objeto inerte, ou a mulher a ser objeto inerte. o homem punk deve se desprivilegiar enquanto macho para desarmar a armadilha sexista. os espaços punks mistos devem destruir o falo e permitir-se uma espécie de castração redentora – não podem ser ciclos de eterno retorno da violência machista. é preciso espaços só de manas punks para se criar desarticulações fundamentais e poderosas da vida domesticada das mulheres dispostas às regras dos homens. o rolê punk só se libertará do patriarcado quando cada mulher se sentir confortável e segura nele. o rolê punk só será libertário e realizador quando cada mulher realizar todas as suas potencialidades nele. ter espaços só de manas não é jogar-contra, mas sim um jogar-com.
(do debatendo as potencialidades femininas dentro do rolê punk)

§06
grupos libertários podem oprimir a individualidade das pessoas que participam dele. devemos estar atentxs e abertxs para perceber essa possível opressão. há muito mais pessoas solitárias, mas solidárias, do que há grupos. é com elas que devemos nos juntar. daqui nascem belas e fortes ações. pois é a qualidade das relações é que importa.
(da entrevista com a distro/gravadora unleashed noise records – sp)

§07
quem disse que cada pessoa deve concentrar todas as sabedorias do universo? quem disse que cada pessoa deve ganhar a vida sozinha e só para si mesma? estamos todxs juntxs no mesmo barco. devemos nos completar mutuamente. devemos nos gerir mutuamente. apoio mutuo cultural e econômico, isto é viver a ampliação da liberdade de cada umx de nós.
(da entrevista com a distro/gravadora unleashed noise records – sp)

§08
como cortar as pernas do capitalismo? é só multiplicar uma infinidade de microeconomias libertárias! distros punks são uma delas.
(da entrevista com a distro/gravadora unleashed noise records – sp)

§09
façamos o que cantamos nas músicas e o que escrevemos e lemos nos zines! a palavra é a extensão de nossa atitude. nossa atitude é a extensão de nossa palavra!
(da entrevista com a distro/gravadora unleashed noise records – sp)
 
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